Tem uma frase que eu escuto quase toda semana no consultório, dita de formas diferentes mas sempre com o mesmo fundo de culpa ou vergonha: “eu sei que não deveria me sentir assim”. Como se sentir ansiedade fosse uma falha de caráter, um sinal de fraqueza, algo que uma pessoa forte simplesmente não sentiria. Então o objetivo da pessoa com a terapia é não ter mais ansiedade. E ai eu, gentilmente, explico que é impossível exterminar a ansiedade, porque ela é uma emoção humana.
Então deixa eu contar uma coisa que costuma aliviar muita gente já na primeira sessão: a ansiedade não é frescura, não é falta de fé, não é fraqueza. É um mecanismo de sobrevivência extremamente antigo do nosso cérebro, e o problema não é ele existir, é ele disparar fora de hora, com muita intensidade, ou para coisas que não representam um perigo real.
Do ponto de vista da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), que é a abordagem que uso na maior parte dos meus atendimentos, a ansiedade tem uma lógica interna bem conhecida. Ela nasce de pensamentos automáticos que nosso cérebro interpreta como ameaça: “algo ruim vai acontecer”, “eu não vou dar conta”, “isso vai sair do meu controle” — que disparam sensações físicas reais (coração acelerado, aperto no peito, dificuldade de respirar) e levam a comportamentos que, na hora, parecem proteger, mas no médio prazo alimentam o ciclo: evitar, controlar excessivamente, checar, se preparar demais para o pior.
O que a ciência mostra é que esse ciclo pode ser interrompido. Não eliminando a ansiedade por completo, porque ela é parte da experiência humana e sempre vai aparecer em alguma medida, mas mudando a relação que a pessoa tem com os próprios pensamentos e reduzindo os comportamentos que mantêm o ciclo girando. Isso envolve, entre outras coisas, aprender a identificar quando um pensamento automático está distorcendo a realidade, e testar, na prática, se aquela previsão catastrófica realmente se confirma.
Uma coisa que gosto de ensinar para os meus pacientes é que as emoções são como ondas, elas vem, atingem um pico de altura e reduzem, então é importante sempre lembrar que: vai passar. Você brigar com a ansiedade só piora. Boa parte do sofrimento não vem do evento em si, mas da interpretação que fazemos dele e da forma como reagimos a essa interpretação. Duas pessoas podem passar pela mesma situação — uma reunião de trabalho tensa, um exame médico, uma conversa difícil — e sair dela com níveis de sofrimento completamente diferentes, dependendo de como seus pensamentos e comportamentos entraram em cena no meio do caminho. Essa é justamente a parte que dá para trabalhar em terapia.

Também vale dizer: existe uma diferença entre a ansiedade que todo mundo sente de vez em quando — antes de uma prova, numa mudança grande de vida — e a ansiedade que já ocupou um espaço grande demais no dia a dia, prejudicando sono, relacionamentos, trabalho ou a capacidade de simplesmente aproveitar as coisas. Se você se reconhece mais no segundo grupo, isso não é motivo de vergonha nenhuma. É só um sinal de que talvez seja hora de ter apoio profissional para entender o que está mantendo esse ciclo de alerta ligado, e como começar a desarmá-lo.
Se esse texto fez sentido pra você, vamos conversar. Às vezes só de colocar em palavras o que você vem sentindo já é um primeiro passo para melhorar sua saúde mental. Clique aqui para agendar sua primeira consulta.
Segunda à sexta-feira das 8h às 22h
Sábado das 9h às 12h
As sessões são realizadas mediante agendamento prévio.
